Feminismo, consumo e os media
‘Consumos, cosmopolitismo e cultura quotidiana no olhar de Mica Nava’, in Media & Jornalismo, revista semestral nº 5, ano 3, 2004
Como podemos definir o conceito de feminismo? Será o contrário de machismo? Ou defenderá uma igualdade entre géneros e não a supremacia de um sobre o outro? As opiniões são divergentes e não nos cabe eleger a que está correcta. Contudo, o seu percurso histórico tem sido alvo de estudos, permitindo a denúncia de aspectos fundamentais da sua definição. Mica Nava, docente de Estudos Culturais da Universidade de Londres, desenvolveu uma investigação centrada em questões como o feminismo e o consumo modernos, incidindo sobre a realidade britânica.
Uma das falhas das abordagens sobre feminismo, segundo Mica Nava, é a omissão da esfera do consumo nas mesmas. Para a autora, o consumismo, personificado no Grande Armazém de mercadorias, ofereceu à mulher um espaço onde se atenuavam as diferenças sociais e, ao mesmo tempo, se seduzia o sexo feminino para um papel de destaque. Aqui, no Centro Comercial, o movimento feminista encontrou um refúgio onde pôde perpetrar a sua afirmação social, cultural e económica, em relação aos homens; aqui, ela é um símbolo da moda, uma “guardiã das fronteiras sociais” [1] e um soldado da sua própria emancipação: encontravam-se com amigas, com amantes e organizaram reuniões de sufrágio político. Assim, «as mulheres e o grande armazém são parte constitutiva da ‘modernidade’»[2]
Não foi só no consumo que o feminismo encontrou a sua afirmação. Apesar de estar associada à trivialidade (noção adquirida através da conotação do consumo ao afastamento de questões culturalmente “mais” importantes), a mulher encontrou no cinema a expressão dos seus desejos e da sua libertação. No período anterior à Grande Guerra, nasceu nas mulheres o interesse pelo exótico, pelo Oriental, pelo ‘estrangeiro’ e pela dança. A sétima arte aproximou-a destes elementos: trouxe-lhe o tango, o ballet russo e o fascínio por todos eles. Este último, aliado ao consumo, levou a que as mulheres se tornassem mais receptivas à adopção da alteridade. No campo social, o cinematógrafo desconstruiu fronteiras geográficas e sociais: a rapariga da classe trabalhadora já pôde casar com o multimilionário.
Esta alteração da mentalidade e papel femininos reflectiu-se também na questão do colonialismo britânico. A mulher branca passou a ser disputada entre o homem branco e o homem negro. A sua escolha recaía sobre o homem negro que, apesar de a encara como um troféu sexual, à semelhança do que já acontecia com o homem branco, lhe oferecia uma maior libertação da hegemonia masculina e um maior poder social. A mulher branca não parecia revoltar-se com a sua condição de troféu. Na maior parte das vezes, ela conseguia uma subversão do poder masculino dominante ou, no mínimo, iludia o parceiro. O mesmo já não acontecia em relações inter-raciais em que a mulher fizesse parte da raça colonizada.
Hoje, a miscigenação é um termo já não associado a colonizadores e colonizados, mas sim ao estabelecimento de relações inter-raciais consensuais. Não é, portanto, uma arma de guerra, perspectiva da qual a autora, em parte, discorda: «a miscigenação (…) revelou-se vulgar e coexiste com a pluralidade contemporânea das fisionomias urbanas britânicas.»[3]
Ultrapassadas estas etapas descritas por Mica Nava, no que concerne ao feminismo, consideramos que, actualmente, este conceito se relaciona com estas questões de forma diferente. Apesar de ainda ser considerada um símbolo da moda, esse papel tem sido democratizado. Hoje, os homens também são objectos e consumidores de moda. Esta já não é, para as mulheres, uma arma de emancipação. No entanto, a figura feminina continua a ser um alvo preferencial de campanhas publicitárias e do chamamento ao consumismo. Por outro lado, explora-se também ao máximo a vertente sensual e sedutora da mulher. Senão vejamos: não são raras as vezes que uma revista dirigida ao público masculino apresenta na capa essa mesma figura, com uma forte conotação sexual/sensual.
Todavia, apesar de ainda ser representada pelos media como uma consumidora nata e um objecto de desejo, é uma outra afirmação que a mulher pretende actualmente e não uma emancipação, entretanto já conquistada.
[1] Citando Mica Nava, «As mulheres eram as principais guardiãs das fronteiras sociais, devido à sua capacidade de codificar e descodificar as práticas culturais em constante mudança e os sinais exteriores de classe.»
[2] NAVA, Media & Jornalismo, ‘Consumos, cosmopolitismo e cultura quotidiana no olhar de Mica Nava’, p. 125
[3] Idem, Ibidem, p. 129
Carina Santos, nº 22090
Marina Paulo, nº 21684

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