sábado, abril 30, 2005

Food Force & First Person Shooters

A par e passo com a evolução dos media electrónicos, os jogos de vídeo têm aperfeiçoado capacidades fantásticas de recriação da realidade, ora através de uma reprodução fiel, quase indistinta, dos seus contornos, ora através da sua total transfiguração, em processos que ocorrem ao nível da consciência de jogadores submersos em mundos virtuais ficcionados.

Poderão tais episódios de submersão da consciência alterar a percepção que temos da realidade?

De acordo com os ditames da fenomenologia, toda a experiência é válida na construção contínua de “uma visão acerca do mundo”. Assim, sempre que a nossa consciência esteja suficientemente desperta, num state of awareness que nos permita equacionar soluções para determinados problemas ou reflectir sobre as mais variadas questões, encontramo-nos em pleno processo de estruturação da nossa posição perante o mundo real, mesmo que caminhemos sobre trilhos virtuais.

O jogo Food Force exemplifica bem o que acima se diz – recria situações de dificuldade extrema, como sejam as dificuldades na distribuição de bens alimentares a populações afectadas pela subnutrição e por doenças epidemiológicas, propondo ao jogador a persecução de alguns objectivos fundamentais, de entre os quais se destacam o correcto racionamento dos recursos alimentares disponíveis a cada momento, o controlo da mortalidade e dos surtos epidemiológicos e, claro, a capacitação contínua dessas populações no sentido de se tornarem autónomas no cultivo e produção dos seus próprios alimentos e recursos. Trata-se de uma lição humanitária virtual.

Assim, as dimensões pedagógicas consubstanciadas no jogo Food Force são óbvias, demonstrando as potencialidades educativas que as indústrias de software lúdico podem explorar, ao invés de conceberem títulos que fomentam o tremendo crescimento das comunidades de first person shooters na Internet.
João Mendonça